Depois que tudo passar

Uma olhada ao espelho


Solidariedade com todos aqueles que sofrem nesta difícil época, aos que perderam pessoas queridas, não há empatia possível sem o sentir na própria pele e temo que qualquer palavra será esmagada por este oco sentimento de impotência. Ainda resta um largo e difícil caminho a ser percorrido, mas, como nos conta a história e já vemos nos primeiros indícios de normalidade na China, fora a dor e as saudades, tudo passará.


Contudo, algumas realidades permanecerão e necessariamente exigirão novas formas de pensar e de atuar:

O 1% dos mais abastados do planeta acumulam a mesma riqueza que os 52% mais pobres.

À pandemia tanto faz como tanto fez, a imunidade não se mede pela riqueza. Ao vírus pouco lhe importa o dinheiro, os títulos, os cargos de poder. Mais além, não consta que a Deus lhe importará. As riquezas que se vêem nesses tempos extremos e em toda a vida, são as da alma: solidariedade, humildade, caridade, calor humano, os tesouros inexoráveis.


Permanecerão valorizadas depois que essa calamidade seja mera história?


A solidão adoece e há anos é considerada uma epidemia entre jovens e velhos. É um catalisador do stress, da ansiedade ou da depressão. Também influi na hipertensão, diabetes e até no câncer. Contudo, suas consequências são mais severas para os idosos, os mesmos que agora precisamos preservar, deixando-os justamente isolados. Lamentavelmente já temos feito isso há muito tempo.

 

Costumava visitar uma anciã que, no instante em que entrava em sua casa, parava imediatamente suas atividades, passava um café e se concentrava somente em nossa conversa. Para ela (e após aprender a lição, também para mim), não existia nada mais importante que aquele momento. Eram horas enriquecedoras, íntimas, acalentadoras e seguramente nos tocava mais profundamente que qualquer fútil mensagem de Whatsapp que nos distraem a cada dois minutos.


Nós sairemos da quarentena quando tudo passar. E os idosos?


Devido a pandemia armazenamos comida por meses, parece que o mais importante é garantir o nosso. O mundo desperdiça 30% da comida produzida. Com apenas 2% de todo orçamento mundial investido em armamento militar seríamos capazes de erradicar a fome no planeta.

A cada 3 segundos uma pessoa morre de fome ou de suas consequências. Até chegar ao final do texto serão aproximadamente 62 a endossar tal desoladora estatística (ver conto 3 Segundos).

Depois que tudo passar, seguiremos nos alimentando de indiferença?


Buscamos vacinas para derrotar o vírus. Já não importam nacionalidades, ideologias, empresas ou segredos científicos com tal de encontrar a tão necessária medicação, todos juntos. Mas também o planeta está doente, o aquecimento global é evidente, avança e matará. Da mesma maneira que a poluição (ar e água), as gretas ideológicas, a corrupção, os discursos de ódio, a perseguição das minorias, as fronteiras fechadas e o preconceito. O vírus mais potente é a nossa ambição, sua desenfreada ganância.


Depois que tudo passar, haverá uma vacina contra o egoísmo?


Por fim, para amenizar os efeitos da pandemia, os governos apelam à compreensão, disciplina e aos cuidados de cada indivíduo. Apenas venceremos este pesadelo se cada um fizer a sua parte. Mas, efetivamente, quantos de nós, quando tudo passar, reduzirá seu consumo de carne, economizará água, utilizará transporte coletivo, reciclará resíduos ou deixará de comprar produtos elaborados por mão de obra escrava? Muitos oram nestes momentos difíceis e muitos dizem que tem fé num mundo melhor: mas é sincera uma fé que não atua?


Mais além dos benefícios gerados por algoritmos e pela tecnologia, não nos esqueçamos de ser humanos, de pensar por conta própria e com profundidade, de desenvolver a nossa intuição, de que há uma voz interior que não devemos ignorar nem temer, de nossa real essência. Ciência e fé raciocinada são compatíveis, é hora de nossas melhores qualidades, de atuar em suas possibilidades.


Definitivamente, nossas atitudes escreverão nosso destino. 


Seremos sempre herdeiros de nós mesmos.


Hendrik Wernick

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